VAI ENTENDER ESSA RAÇA

raça

Por Rodrigo Raynner*, especialmente para o Terreirão.

Irmãos alvinegros,

Trocando idéia com os amigos desde o primeiro gol do Colo-Colo até agora, por pouco não chutei o balde e desisti de amansar os ex-se-não-é-sofrido-não-é-Galo e os ex-eu-acredito, que logo na estréia foram dizimados pela falha do São Victor e imediatamente ressuscitados por uma espécie de Gyodai do futebol que os transformou em monstros corneteiros altamente destrutivos.

Como eu não sou nenhum Change-Robô ou o Gigante Daileon para lutar contra esses caras, deixo o destino sob a incumbência de mostrar, mais uma vez, que o Galo merece nossa confiança. A não ser que você seja do tipo que acha que uma derrota no início de temporada representa o fim do mundo, transformando automaticamente o time campeão de 2014 num bando de peladeiros comandados por um burro sem sorte, quero convidá-lo a pensar comigo.

É preciso, antes de tudo, tomar uma água com açúcar, dar uma respirada daquelas bem profundas e, voltando à racionalidade, entender as raízes de todas as nossas aflições, coisa normal pra quem torce para o Galo ou para qualquer time de futebol.

Primeiro, o tal planejamento. Trata-se de uma ilusória preparação para o que poderá acontecer durante todo o ano. Só tem uma coisa que atrapalha o planejamento de qualquer clube: o fato de os adversários não participarem das reuniões e nem assinarem a ata onde foram estabelecidas as metas. Pelo contrário, eles querem é atrapalhar mesmo. Qualquer planejamento se limita a saber a quantidade de jogos da temporada, quantas viagens, a logística e a quantidade de atletas necessários para as competições no ano, de acordo com a projeção de desempenho em cada uma delas. Importante lembrar que quando se trata de mata-mata, o planejamento vai pro ralo quando o juiz apita o início da partida.

Depois, o acaso. O acaso é mais um inimigo do planejamento. Pode acontecer antes, durante ou depois do jogo. Pode chegar num acidente doméstico ou numa trombada mal calculada num treino coletivo. Um exemplo claro de acaso foi a contusão do Emerson no primeiro jogo oficial de 2014 e duas semanas depois, Rever precisar fazer uma cirurgia no tornozelo. Me explica, velho! Como é que planeja isso? Você dispensa dois zagueiros reservas e contrata outros dois mais novos e com salários mais baixos pra recompor o grupo. Certinho. Aí logo no primeiro mês da temporada o time perde dois zagueiros por contusão e a galera reclama de falta de planejamento? Tá entendendo?

Bilionários chineses também fazem parte do acaso e podem ser enviados pelo capeta pra tirar, de um dia para o outro, nossos melhores jogadores. Aí não tem planejamento que agüente mesmo.

Na sequência, o futebol. Jogo fantástico, apaixonante, empolgante e imprevisível. Possibilita que o pobre vença o rico, o fraco vença o forte, o pior vença o melhor. Talvez por isso seja tão louco, mas quando o resultado foge à lógica que está na prancheta do Papai Joel, nêgo fica louco e quer o time todo na rua. Ora! Você é viciado em futebol porque é “uma caixinha de surpresas”, meu caro. Agora, quando seu time – que é o melhor do universo – perde, você acha o fim do mundo? Quer ganhar sempre? Marca jogo com o crüzeiro, fera!

Finalmente, o Galo. Está acima de planejamento, acaso e até do futebol. Atleticanos não estão nem aí pra futebol! Atleticano gosta do Galo e pronto! Torcer pro Galo te livra da necessidade de qualquer noção técnica, tática ou física. Torcer pro Galo não combina com paciência, moderação ou controle emocional. Atleticano apóia o time quando cai pra série B, mas vê como tragédia perder numa estréia de Libertadores, jogando com 4 desfalques, fora de casa, para um time tradicional na América do Sul, o mais forte do Chile.

Obviamente, ser atleticano isenta o sujeito de qualquer comportamento coerente e isso torna inútil toda a minha explicação anterior. Quem tá puto continuará puto até que o Galo vença novamente. Aí, de puto o cara volta à categoria dos “se-não-é-sofrido-não-é-Galo”, cria um grupo  “eu-acredito-até-o-fim” no whatsapp e enche o meu celular de montagens fantásticas do Galo, fazendo menção a milagres, dificuldades e superação.

Vai entender essa raça, hein.

FICA, VAI TER RAIO.

raio

*Por Rodrigo Raynner, especialmente para o Terreirão.

Esses dias eu estava assistindo à uma entrevista de São Victor onde ele descrevia de forma sensacional, do ponto de vista de quem fica ali debaixo das traves, o lance mais fantástico que eu já vi no futebol mundial. Após me emocionar pela milionésima vez relembrando aquela noite em que Riascos partiu para a bola, eu fiquei pensando em como, nos últimos anos, nossa vida de Galo tem sido dura e fantástica ao mesmo tempo. Como diria o grande Mário Henrique: “porquêêêê que tem que ser tão sofriiiiiiido assim, meu Deus?”

Voltando um pouco no tempo – para não sofrermos demais – começo com o inesquecível Atlético 3×2 Fluminense, pelo segundo turno do Brasileirão 2012. Naquele jogo começamos a mudar uma das terríveis tradições do Galo: a de jogar muito e deixar a vitória escapar, geralmente com uma desculpa esfarrapada que parecia consoladora, mas não resolvia nada. Naquele dia poderíamos ter saído do Independência orgulhosos com o time, como em várias vezes, porém decepcionados com o resultado no placar. O cruzamento de Ronaldinho para a cabeçada de Leonardo Silva, aos 47 minutos daquela partida, decretou o fim disso tudo. Uma virada espetacular, no finalzinho do jogo. Esse repertório soa familiar?

No ano seguinte, o raio foi lá e caiu mais uma vez no mesmo lugar. O raio! O Big Bang do Galo! Aquilo foi mais indescritível do que qualquer lance que eu já vi na vida! Sem muito esforço, a canhota do Victor extinguiria os dinossauros novamente. Alguém me explica como o DeLorean não apareceu, de repente, dentro daquela pequena área?

Aí vieram os hermanos e… KABRUUUUUM! O raio caiu de novo. Pensa no lance do segundo gol, cara! A bola estava praticamente nas mãos do arqueiro argentino! O volante tirou a bola do goleiro, deu uma espanada para fora da área e ela caiu lindamente nos pés, quem diria, de Guilherme. E se ele deixa pro goleiro? E se ele acerta na veia e manda aquela bola no meio de campo? E se Guilherme não acerta aquele chute? E se… não véio! Para! Tinha que ser! Aquele lance foi uma tempestade de raios dentro da grande área do Newells!

Talvez, assim como eu, você também tenha pensado: “Pronto! Gastamos toda a sorte que não tivemos em 105 anos de história!” Aí tivemos aquela furada do zagueiro dentro da área, deixando a bola para Jô marcar o primeiro gol naquele 24 de julho. Tivemos aquele carrinho que o Elias Kalil deu no Tanque Ferreira de frente para o gol vazio, aquela cabeceada toda desequilibrada de Leonardo Silva mandando a bola para o fundo das redes… foi raio demais naquela final contra o Olímpia. Foi tanto raio que nem a CEMIG sabia o que fazer.

E o Galo foi Campeão da Libertadores.

Aí veio 2014 e antes que o segundo semestre começasse, já tinha atleticano jogando a temporada no lixo. Libertadores tinha ido pro saco, o Brasileirão estava nas mãos do nosso rival… só nos restava a Recopa e a Copa do Brasil. No tira-teima sulamericano, a sorte nos sorriu mais uma vez. Depois de um jogo duríssimo contra o Lanus, dois gols-contra definiram o resultado da partida, na prorrogação. Sofremos 90 minutos para isso. Levantamos mais uma taça.  Tinha que ser assim.

Foi aí que a fábrica de raios voltou a funcionar. Era Copa do Brasil. Depois de passarmos pelo fraquíssimo Palmeiras, só pegaríamos “pedreira” até a final, com a chance de enfrentarmos o crüzeiro na melhor fase da sua história. Pra muitos, um azar. Mesmo depois de enfiarmos 4×1 no Corinthians, muita gente duvidou que teríamos força para reverter o placar diante do Flamengo, mas assim como minha avó falava de espelho e guarda-chuva, a narração do gol rubronegro decretando-o “classificadasso”, atraiu mais uma tempestade de raios para o Mineirão. Outra virada louca. Estávamos na final e era o crüzeiro.

Aí eu pensei que seria complicado. Que nada. Vencemos tranquilamente, sem raio, nem nada. Dois jogos de supremacia total, tanto no Independência, quanto no Mineirão. E fomos campeões.

2015 começa nesse domingo! Prepare o coração porque, certamente, será sofrido. Eu já estou acostumado. Desde aquela cabeçada do Leo Silva, aos 47′ contra o Flu, eu ouvi essa história de que  “raio não cai duas vezes no mesmo lugar” uma porrada de vezes. E, honestamente, já não sei mais quem acredita nesse lorota.

Preparem os pára-raios aí. Se Deus quiser, esse ano tem mais.