ANDAREMOS SOBRE AS ÁGUAS

 

fe

A tua fé será testada.

Fala, raça!

 

Se tem uma coisa em que o Galo se especializou nos últimos anos, foi fazer seu torcedor passar aperto. Sério, cada jogo é um teste cardíaco brutal e cada classificação tem ares de filmes hollywoodianos. Estou pensando até em propor uma mudança naquele jargão “se não for sofrido, não é Galo” para algo do tipo “se não for épico, não é Galo”. Alguém sabe me dizer porque tem que ser sempre assim? Não tô falando? Olha aí, mais uma vez, esse maldito placar de 2×0 que insiste em testar a nossa fé. Dizem que por muito tempo Deus esteve de sacanagem com a gente, culpa daquela promessa não cumprida do Telê em 71, conforme já averigou meu xará Fred Melo Paiva, camarada pelo qual cultivo grande respeito e admiração. Fomos abandonados no deserto, igualzinho aquele povo que andou 40 anos na areia escaldante. Mesmo assim, não descremos.

 

A Libertadores foi o maná vindo do céu, para mostrar que, ao contrário do que muita gente pensava, ele ainda estava ali. Deu as costas porra nenhuma! Tudo não passou de uma pegadinha divina, tão somente para ver se a nossa fé estava em dia, firme. Aí ele aproveitou o embalo e nos deu de presente a Recopa.

 

Agora, mais uma vez, seremos desafiados a pisar na água, no meio da tempestade. Nossa confiança será posta a prova, junto com nossa humildade. Porque confiança é diferente de arrogância, meu velho. Já vi muito atleticano falando que tá fácil virar, que nos tornamos especialistas em reverter esse placar, que será mamata no Mineirão. Bom, confesso que a tentação em concordar com tudo isso é forte, justamente pelo retrospecto recente. Mas espera aí… é preciso calçar as sandálias da humildade, porque nem papai do céu é capaz de transformar perebas em craques da noite para o dia. Talvez, seja, mas não é isso que quero falar.

 

A questão é que sem futebol, não há reza que dê jeito. Se jogarmos pra frente, se jogarmos o que sabemos, é grande nossa chance, ainda mais num Mineirão lotado. Agora, se fizermos igual fizemos ontem, a coisa vai pro saco e não adianta colocar a culpa no homem lá de cima.

 

Vai vendo.

 

#GaloSempre

*Post originalmente publicado antigo Terreirão, no globoesporte.com

NÓS VAMOS INVADIR SUA PRAIA

copacabana

“Lá estava ela, tremulando soberana, nas areias de Copacabana.” Cariogalo.

Fala, raça!

Confesso que dei uma desanimada com internet nesses últimos dias, absurdado com a transformação da grande rede num imenso esgoto humano, carregado de preconceito, intolerância e uma xenofobia inexplicável, quase um nazismo disfarçado. Eu, que possuo raízes nordestinas, fui tomado por uma tristeza profunda, que por muito pouco não se transformou em revolta. O vídeo de Bráulio Bessa me ajudou a sair dessa. Me emocionei. Aí lembrei da Galo da Peste, da Pernambugalo e tantos outros irmãos alvinegros que lá estão. Lembrei de um povo feliz, de um povo batalhador, corajoso, inteligente e criativo, que transborda cultura e amizade sincera. E aí tive pena. Não deles, mas dos tolos que não conhecem o que é a alma nordestina e a importância que essa gente tem para o resto do Brasil. É como diz o poeta: triste o povo que não sabe de onde vem. Essa é a mais pura verdade, traduzida em meia dúzia de palavras.

Noves fora, vida que segue.

Tem muito marmanjo por aí tentando explicar o sucesso do Galo nas três últimas temporadas, querendo descobrir a todo custo a fórmula mágica da vitória que foi secretamente desenvolvida em Lourdes e que só duas pessoas nesse mundo sabem a receita: a dona Terezinha – a tia que entra com as crianças antes dos jogos do Atlético e o Belmiro, que, tenho certeza, não falariam nem sob tortura. Nem mesmo se ameaçassem cometer o maior sacrilégio de todos, que é queimar a bandeira do Galo, eles abririam o bico. Então, meus caros… desistam.

O fato é que essa receita milagrosa tem feito o Galo vir numa pegada muito forte desde 2012, resultando nas conquistas da Libertadores em 2013 e da Recopa, em 2014. Mas ainda falta um detalhe, a tal cereja do bolo: falta levantar um título nacional para exorcizarmos – de uma vez por todas – a urucubaca que nos persegue desde 1971. Questão de justiça, tão somente.

Uma Copa do Brasil, mesmo não sendo lá grandes coisas, já resolveria essa questão. Em nosso caminho, adivinha só… o Flamengo de Luxemburgo. Pô, isso só pode ser um presente do destino! É a oportunidade perfeita para cobrarmos duas dívidas de uma só vez, com juros e correção. Se liga Flamengo, chegou a sua hora. Primeiro jogo no Rio, a volta no Mineirão. Assim como nas décadas de 70 e 80, a massa promete tomar a praia dos caras, azarar as garotas de biquini – somente as que estiverem com a depilação em dia – e fazer a festa no Maracanã. Vai ser lindo ver a bandeira alvinegra balançando ao vento carioca, mais uma vez.

Nem precisa ser outro Maracanazzo, não faço questão de tanto. Desejo apenas que a peleja seja justa, que o embate seja honesto. Acho que não é pedir muito.

Vamos campeonar, meus amigos. Precisamos apenas vencer mais algumas batalhas.

Aqui é Galo.

*Post originalmente publicado antigo Terreirão, no globoesporte.com

DESCONHECEMOS O IMPOSSÍVEL

guilherme

Serás questionado até o último dos teus dias, mesmo que injustamente.

Fala, raça.

Maldito seja o placar de 2X0 na casa do adversário, que nos faz temer pelo pior. Maldito seja esse resultado que nos traz lembranças de ídolos que não estão mais conosco e de outros que teimam em queimar a própria história. Maldito seja.

Bendito seja os dois tentos contra, que nos fazem lembrar de viradas heróicas, do choro de alegria, da testada aos 41 minutos do segundo tempo. Bendito seja esse resultado adverso, que nos faz ter a certeza de que o impossível não existe. Bendito seja.

Maldita seja a rede de Victor balançando aos quatro minutos, como um abalo císmico devastador de esperanças. Essa sina de ter a certeza de que se é pra ser, vai ser sempre do jeito mais difícil. Sempre. Vai ser com nosso craque chegando de uma viagem de mais de trinta horas e jogando com a alma. Vai ser com gol de Luan, a personificação da raça atleticana. Vai ser com costela quebrada. Vai ser com Guilherme decidindo, outra vez. E mais outra. Vai ser até com Edcarlos, esse sacana que num jogo nos mata de raiva e no outro nos mata de alegria.

Benditas sejam as viradas históricas, os jogos imortais. Bendito seja todo esforço, cada palmo conquistado. Benditos sejam os 32 mil que não arredaram pé e que estiveram no Gigante da Pampulha, esse estádio que nos agiganta ainda mais.

Valeu Victor. Valeu Jemerson, Marcos Rocha, Douglas, Donizete, Josué, Carlos, Maicosuel, Dátolo e Marion. Valeu por não terem desistido, em nenhum momento. Valeu Levir, seu velho doido.

Bendita seja a dança da vitória. Porque não há nada como um dia após o outro.

#GaloSempre

*Post originalmente publicado antigo Terreirão, no globoesporte.com

HABEMUS RAÇA

luan

Somos todos Luan doidão.

Fala, raça!

Quando cheguei no Horto na tarde desse domingo, sabia que a coisa seria pesada. Dava pra sentir o cheiro da tensão no ar, diferente da confiança esmagadora de outrora. Ainda faltavam vinte minutos para o começo do jogo eu já achava ter sido péssima a idéia de levar meu velho – infartado 7 vezes – ao estádio. Ê Galo.

Mesmo com inúmeros desfalques, Atlético e São Paulo travariam uma luta feroz pelas primeiras colocações na tabela de classificação: o alvinegro querendo o G4 a todo custo. O tricolor tentando se manter na vice-liderança do campeonato. Era briga de foice no escuro, meu camarada.

O primeiro tempo não foi bom pra gente e aquela desconfiança que eu tinha lá antes do jogo começar foi se transformando em certeza: era hoje que o coroa batia as botas. O Galo voltou para o segundo tempo e o miserável do André não ajudava em nada. Deu dó do bebezão. O coitado não tem culpa de ser péssimo e de ter que substituir às pressas o Jô, que resolveu curtir uma baladinha no Rio nesse final de semana. Pô, Jô… aí você acaba com a sua carreira e, de quebra, com a do bebezão.

As vaias obrigaram Levir a colocar Marion em campo. O jogo ganhou outra dinâmica e o Galo passou a ameaçar mais o São Paulo, mas não na mesma proporção em que era ameaçado, culpa do esquema kamikaze com apenas um volante. De repente, numa jogada pela esquerda, Alex Silva – que é lateral direito – colocou Luan na cara do gol. Por um segundo o Independência ficou em silêncio, aguardando a conclusão da jogada. Foi o segundo mais longo que eu já vi. Luan parou, dominou a bola, olhou para o canto esquerdo, fingiu que ia chutar lá e meteu no outro canto de Rogério Ceni. Forte. Preciso. Tranquiulo. Raçudo. A arquibancada quase veio ao chão no Independência.

Daí pra frente foi só sufoco, não existia mais técnica, nem tática. Era tudo coração e raça, até o apito final. Vencemos. Com o golzinho de Luan, seguindo à risca o manual do atleticano, capítulo 2, parágrafo primeiro: se não é sofrido, não é Galo. Ainda há de vir uma boa alma que mude essa regra, porque assim meu coração não vai aguentar. Imagina o do sô Elson.

#GaloSempre

PS.: Eu nunca vou conseguir achar normal um jogo do Galo sem arquibancada abarrotada. Se for do Mineirão, pior ainda. Jogo decisivo então, nem se fala. Lembre-se: mouse não ganha jogo. Garganta, sim. Tá virando smurf, caramba?  Então trate de ir lá gritar até sangrar na quarta-feira, no Gigante da Pampulha. Temos um jogo para vencer.

SOBRE A MORTE DO ESPETÁCULO

festa

A festa ainda existe, mas é longe daqui.

Fala, raça!

Estamos prestes a ver o maior clássico de todos os tempos, um jogo épico que provavelmente dividirá a história do futebol mineiro. Nós, que fomos renegados durante décadas, reivindicamos agora o título de melhor futebol do país da forma mais honesta possível: na bola.

O engraçado é que, mesmo em nosso melhor momento, conseguimos tirar dos holofotes o que mais interessa. Não se ouve falar dos craques no noticiário. Não se comenta sobre os treinadores e suas táticas mirabolantes. Sobre as qualidades de cada time? Nada disso, não tem espaço para esse tipo de conversa. Infelizmente a briguinha infantil entre os clubes – recheada de acusações e troca de insultos – e seus presidentes é mais importante que tudo isso e tanto faz quais cores você defenda, se deixar o clubismo de lado por um segundo, vai ver que os dois estão errados. Um tomado pelo orgulho e o outro cego pelo dinheiro.

Por mais plausíveis que possam parecer os argumentos de cada um, a grande verdade é essa: Kalil rejeita o Mineirão como um menino mimado, faz pirraça e sequer pisa lá. Gilvan, uma versão bocó do Tio Patinhas, só tem olhos para os cifrões que saem das carteiras de seus sócios torcedores e que se dane o resto. Assim, os dois presidentes vão exterminando o maior espetáculo que a gente já viu, que é o clássico com as duas torcidas juntas no Mineirão abarrotado. Triste.

Sabe, eu já estive em jogos com 90, 100 mil pessoas na arquibancada, coisa que as novas arenas padrão FIFA extinguiram para sempre. Tenho uma pena profunda das novas gerações, que nunca saberão o que é isso. Tenho saudades do clássico dividido, coisa que meus filhos e netos provavelmente só ouvirão falar. Nem o tropeirão, patrimônio cultural da sociedade futebolística mineira, foi respeitado. Tudo isso culpa da ganância, incompetência e má vontade dos que estão aí.

O torcedor, parte fundamental desse espetáculo e única razão dele existir, é deixado de lado. Fora do estádio, é tratado como um animal. Dentro dele, como um idiota. Não pode ficar em pé. Não pode levar bandeira. Não pode levar tambor. Não pode radinho. Não pode sinalizador. Não pode papel picado. Tudo isso em nome de um padrão que não é nosso, um padrão internacional que nos foi enfiado goela abaixo. Não consigo entender como é que aceitamos essa situação.

Estamos a poucas horas do maior Atlético X Cruzeiro que essas terras já viram e, independente de quem vença, a única certeza é que o futebol – não só o mineiro – já saiu perdendo.

#GaloSempre

A INABALÁVEL FÉ DO ATLETICANO

 

inabalavel

São Victor do Horto, rogai por nós.

Fala, cambada!

A coisa não foi como esperávamos e o Galo caiu diante do Corinthians, numa das piores partidas que vi o Atlético jogar nessa temporada. O nervosismo era evidente e refletiu diretamente na parte tática e técnica do time, que não acertava passe de cinco metros, algumas vezes beirando o amadorismo. Na boa, quando a coisa tá complicada é melhor nego fazer o feijão com arroz do que tentar jogada de efeito. Não sei se era confiança demais, mas vi gente dando chapéu, toque de letra e o escambau, sendo que na sequência deixava a bola sair pra fora ou era facilmente desarmado pelo adversário. Não, Galo… não é assim que se faz.

O jogo de ontem foi tão atípico que até Victor vacilou. Quer dizer… a bola perdeu a grande chance de ser defendida pelo Santo, já que Victor – o milagreiro da camisa 1 – não falha. Nunca. Se alguém ousar dizer o contrário, corre sério risco de ser excomungado da Igreja Universal do Reino do Galo, como diz meu xará Melo Paiva. Eu, gozando plenamente de minhas faculdades mentais, concordo.

Ainda há de ser explicado como é que um jogador peruano consegue fazer sucesso no Brasil. Guerrero é aquele típico caso fora da curva, um cara que saiu do insignificante futebol do Peru para fazer gol em cima de Marcos Rocha, inquestionavelmente o melhor lateral direito do país. Não tem lógica isso. Zoeira a parte, o centro avante corinthiano teve de sobra o que faltou aos atacantes atleticanos naquele Itaquerão lotado: sorte. Todo bom jogador precisa dela, obviamente.

A derrota de ontem coloca o Galo em desvantagem para o jogo de volta. O placar desfavorável em dois tentos nos traz lembranças de um tempo não muito distante, quando nos especializamos em destruir a confiança adversária. 2X0. Foi assim contra o Newells, foi assim contra o Olimpia. Mesmo com todas as questões que envolvem o jogo decisivo – os desfalques por lesão, a ausência do craque, a distância do Horto – não existem motivos para baixarmos a guarda. No Mineirão lotado nossas forças se multiplicam por mil, por sessenta mil. Mais uma vez a fé do atleticano, inabalável, será colocada a prova. E é bom que seja assim. O coração batendo forte, a veia saltando do pescoço, o frio na barriga… tudo isso é sinal de que estamos vivos. E quando o grito de “eu acredito” ecoar nas paredes do gigante de concreto, eu acho difícil o Corinthians aguentar.

Firma a base aí que a guerra ainda não acabou.

Aqui é Galo, porra.

*Post originalmente publicado antigo Terreirão, no globoesporte.com